Ato final

palhaço assustador

A pior parte de perder alguém que amamos é o fato dela levar consigo uma parte de você. Haverão momentos nos quais a dor da despedida tomará de conta por algum tempo. Podem ser horas, dias, semanas, meses, anos e até mesmo para sempre. Imprevisível e indeterminado. Nesse tempo, somos irresponsáveis por nossas ações.

Como poderia ser quando a emoção fala mais alto que a razão e coisa outra qualquer? De repente, você se encontra ali, perdido, sem saber o que fazer em seguida. Para os outros aparentará sempre melhor do que como realmente está. As pessoas dizem coisas do tipo “vai ficar tudo bem com o tempo” e perguntam como você está inúmeras vezes.

Mas aqui está a verdade, no fundo nem se importam com sua resposta e preferem a mentira descarada de que tu estejas bem a ter de escutar seus pesadelos e lidar com os mesmos. Eu entendo isso. Quem gostaria de problemas alheios quando já tem os seus, não é mesmo? Ninguém verdadeiramente os quer ao menos que seja pago por isso. Grande sociedade! Rica em preços. Miserável em valores.

Tenho dito: Os vermes da putrefação são tão leais quanto às lágrimas aos pés do seu leito de morte e todo o sentimento ante e póstumo. É válido ressaltar sobre os dois mais profundos e sobressaídos, amor e arrependimento. Juntos? Dilaceram a alma e mente, pouco a pouco, como o veneno colocado para junto da comida de mais uma vítima de Paulo Ruan, chamada Lídia.

Com uma infância cheias de abusos oriundos de uma mãe, Patrícia, submissa e pai, Ricardo, covardemente agressivo. Paulo Ruan canalizou todo o seu ódio às mulheres que viria a matar. Um garoto doce e inocente tornou-se homem impiedoso, frio e calculista. Fazia com que a pessoa acreditasse em todo o seu teatro sobre o quanto a amava. Cada detalhe acerca da rotina e costumes era analisado por esta mente destruída. Ações e reações.

Começava a envenenar aos poucos, mas não com o intuito de matar logo e sim a fim de causar danos lentamente ao corpo e psicológico da vítima. Chegava a tal ponto do prestatito oferecer-se a ajudar, ganhando confiança e ternura da pessoa enquantoa deixava impotente e submissa quanto a, respectivamente, ele e Patrícia – primeira de vinte e cinco mortas. Único homem foi seu genitor.

Graças a herança de seu primeiro homicídio – seus pais, vivia sempre mudando de cidade, nome, aparência e personalidade. Lídia tinha lá seus 48 anos, médica, morava sozinha, sem animais de estimação e um filho que estudava noutro país. Desde o seu divórcio, não havia dado a si  chance de encontrar alguém novo. Para seu azar, resolveu dá-la a pessoa errada.

Após meses saindo juntos, Paulo Ruan já estava com todos os preparativos prontos e a cada hora mais ansioso com o esperado dia aproximando-se. No fundo, ele sabia que tudo sairia com o planejado até ali. Entretanto, como as demais vezes só iria relaxar a partir do momento em que ela desse seu último suspiro de vida. Era um prazer assistir a morte de uma vítima. Sentia-se orgulhoso.

Cegamente ele não percebeu diante dos olhos sua semelhante. Pelas ironias existentes, dois seres tão compatíveis encontraram-se numa noite nada casual. Dois atores doentes num teatro macabro. Já dizia Vinícius de Moraes, a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.

Esperado sábado à noite. 

A atuação para um ali se encerrou junto a sua existência.

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