aDeus

Todos nós sabemos que iremos morrer em algum dia, mas por alguma razão temos um medo terrível quando o assunto é esse. Se for possível prolongar a nossa vida ao máximo, estamos dispostos a fazer qualquer coisa para tal: ter mais tempo. Nem que seja um pouquinho. Ah, o tempo! Ele vai passando tão depressa, levando os anos consigo e quando menos damos conta chegou a hora da despedida. Nossa, como eu odeio despedidas. Dá um nó aqui dentro, sabe? Mas hoje tudo que eu mais queria era ter tido despedidas em especial. Por sentir esse temor e querer evitar o inevitável tanto assim, é difícil lidar quando isso acontece com o outro também. Como aceitar que chegou a hora de dizer “adeus”?

Ninguém em sã consciência quer dizer isso a alguém que ama. Infelizmente, às vezes, você não tem essa chance… De falar tudo que sente aí dentro, mesmo sabendo que por mais que fale o que vier à mente ainda assim não seria o suficiente. Ainda assim, haveriam mais palavras a serem ditas. Ainda assim, haveriam mais abraços para serem dados. Ainda assim, teria em mente de que tudo já vivido até ali não foi o suficiente. Não é, nem será. Esse é o mal de não saber lidar com a morte. Mesmo sendo ela a única certeza na vida. É difícil e doloroso. O que é a dor senão algo que merece ser sentido? E necessário. Até aquela que te deixa catatônico por algum tempo – talvez segundos ou minutos – debaixo de um chuveiro processando a pior notícia da sua vida.

É claro que faz parte do processo vital os mais velhos irem antes dos mais novos. Meus avós irem. Meus pais irem. E, em algum ponto a minha vez de ir também. Um ciclo natural. Eu sei. Todo mundo sabe disso. Só que quando você vê seu pai passar por tanta coisa dolorosa que é estar num tratamento de câncer, é impossível desejar que ele não saia daquela bem. A esperança, de fato, é a última a morrer. Há coisas que acontecem no meio disso tudo que te marca. E essa marca vai ficar em ti pro resto do teu tempo. Não tem como fugir disso. Não tem como dizer que com o passar dos dias você vai esquecer. Ou seja lá outras frases que usam nessas horas que parecem mais um manual pronto de “O que dizer para alguém que acabou de perder outra pessoa”. Sem querer ser mesquinha. Sou grata a essas palavras.

Em algum momento acalmou o meu coração e… Passou. Afinal, era pra ser assim. Tudo passará. Só que não é bem dessa maneira que acontece. Algumas coisas você simplesmente não esquece. E fica revivendo de novo, de novo, de novo, de novo e de novo. Os dias bons. Os dias ruins. As últimas conversas. Os últimos abraços… Talvez você esteja se perguntando o por quê, quisera eu saber. É involuntário. Pergunto-me inúmeros porquês, entretanto, acho que jamais terei as respostas. Eu seria muito tola se negasse algo que faz parte de mim, mas seria ainda mais se dissesse que não queria mais lembrar de tudo que foi negativo. Sobretudo, isso também conta. Faz falta. Falta que te deixa um vazio. Saudade que te deixa por um fio.

Odeio despedida. Nunca tive uma despedida com meu pai. Nunca pude dizer tudo que tenho engasgado na garganta. Nunca pude dizer o quanto eu o admirava. Demais. Nunca pude dizer que tudo bem ele chorar por sentir medo do que estava por vir. Todos nós sentimos. Nunca pude dizer que a fé e força dele me inspiravam. Nunca pude dizer tanta coisa. Coisas minhas. Coisas dele. Coisas nossas – só nossas. De mais ninguém. Nunca pude visitar naquela semana. Nunca pude acordar mais cedo. Nunca pude voltar no tempo só para ter ao menos dez segundos a mais com ele. Nunca pude me despedir. Nunca poderei nada disso. Jamais poderei esquecer a ligação que mudou tudo. O que passou, passou. A única coisa que resta é valorizar o que permaneceu. E, sempre que possível, fazer com que as pessoas que não valorizam possam enxergar o quão tênue é essa linha de estar do lado de cá e do lado de lá. Não deixe para amanhã. Faça ontem. Diga ontem. Ame ontem. Concretize tudo que estiver ao seu alcance antes que seja tarde demais.

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