Só ria

Quando eu era criança, fiz uma redação inúmeras vezes mesmo a minha mãe dizendo que estava boa. Fiz e refiz até quando eu li e disse a mim mesma: Agora sim! No outro dia, ao ler, fui acusada de ter pedido para um adulto fazê-la. Senti-me profundamente ofendida e envergonhada, mesmo sabendo que aquilo não era verdade, mas pela situação. Porque sempre fui ensinada a assumir os meus atos, sejam eles bons ou ruins. Era a primeira a chegar em casa e contar. Anos depois, voltei a usar o papel e foi a melhor coisa que fiz por mim na vida. Cada pessoa tem algumas coisas que simbolizam o que chamamos de válvulas de escape – uma forma de sair duma situação turbulenta ou ruim. Pode ser o ombro amigo, clima familiar, a birita ou um  cafuné, até. Sempre fui do tipo que me isolava, pegava meu lápis e uma folha. Há pouco, muitas coisas têm acontecido na minha cidade, na minha família e, consequentemente, na minha vida. Hoje parei, sentei, coloquei uma MPB de leve e resolvi pôr no papel um pouco a respeito. Pessoas. Pessoas pedindo um socorro – aparentemente silencioso, até não aguentarem mais. Pessoas deixando uma mistura de impotência e revolta em seus entes e amados – até desconhecidos – por não estarem entre nós devido à imprudência e irresponsabilidade alheia. Pessoas indo da mesma maneira que quem eu amo já foi. Pessoas indo aos poucos e sem motivo nenhum aparente. Nós não costumamos interpretar assim, o ponto é: estamos vivos. Devemos aproveitar este fato da melhor maneira possível. Nem sempre o tempo é nosso amigo. Sempre quando me perguntam qual é o meu medo, agora mais do que nunca eu respondo: perda. Não só para a morte. Para a vida também. Sabe? Quando alguém está ali, mas por dentro está indo aos poucos e quando a gente menos perceber, já foi. Medo de perder gente que é importante pra gente. Medo de perder um último abraço. Medo de perder um último “eu te amo”. Medo de perder um amor. Medo de perder um sorriso. Medo de perder tudo. Medo de se perder. Pois, acreditem, não há nada mais terrível do que você querer tanto uma coisa e não poder mais ter. E fica um vazio. O vazio também preenche. Ficamos cheios de nos sentirmos vazios. Os dias ficam cinzas. As semanas passam, sem graça. Mas cá ficamos persistindo e falando para si: basta rir que passa.

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