Lobo e Cordeiro

Você apareceu em minha vida como essa figura protetora e eu, tão frágil, deixei-me acreditar em tudo. Mal sabia que era o lobo em pele de cordeiro. E eu a sua presa. Como um coelhinho inocente andando por aí sem ter noção do mal que lhe esperava. Seria impossível eu sair dessa sem mudar. Há um marco – do antes e depois, e nele eu perdi algo irrecuperável. Perdi a minha inocência. O que é uma criança sem a inocência? Sem aquela energia que te faz esquecer os problemas por alguns momentos para apreciar a vida. Porque ela é isso. Eu era isso. E você tirou de mim como se fosse nada. Mas, na verdade, era tudo. Notaram que eu mudei. Eles perguntam. Sabem que há algo de errado. Eu não me sinto segura nem na minha própria casa. Durmo com um olho aberto e outro fechado. Tens noção do que é isso? Não? Deveria. Deveria sentir tudo que eu sinto diariamente desde então para ter ciência do mal que fez. Não desejo nada, mal algum a ti, além daquilo que merece. Talvez você nunca será pego. Talvez você nunca pague. Talvez continue se aproveitando. Talvez eles jamais façam algo sobre. Talvez eu morra esperando o dia de um deslize, por menor que seja, suficiente para te fazer cair e jamais ser capaz de levantar e buscar outras para roubar as suas infâncias. Quando isso acontecer, novamente, quando… Não importa quantos anos eu terei, pois mesmo em outro plano, este será o dia mais feliz da minha vida.

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[livro] A Paixão Segundo G.H. – Clarice Lispector

Estou desorganizada porque perdi o que não precisava? Nesta minha nova covardia – a covardia é o que de mais novo já me aconteceu, é a minha maior aventura, essa minha covardia é um campo tão amplo que só a grande coragem me leva a aceitá-la -, na minha nova covardia, que é como acordar de manhã na casa de um estrangeiro, não sei se terei coragem de simplesmente ir.

É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. Até agora achar-me era já ter uma ideia de pessoa e nela me engastar: nessa pessoa organizada eu me encarnava, e nem mesmo sentia o grande esforço de construção que era viver. A idéia que eu fazia de pessoa vinha de minha terceira perna, daquela que me plantava no chão. Mas e agora? estarei mais livre?

Não. Sei que ainda não estou sentindo livremente, que de novo penso porque tenho por objetivo achar – e que por segurança chamarei de achar o momento em que encontrar um meio de saída. Por que não tenho coragem de apenas achar um meio de entrada? Oh, sei que entrei, sim. Mas assustei-me porque não sei para onde dá essa entrada. E nunca antes eu me havia deixado levar, a menos que soubesse para o quê.

Ontem, no entanto, perdi durante horas e horas a minha montagem humana. Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação.

Como é que se explica que o meu maior medo seja exatamente em relação: a ser? e no entanto não há outro caminho. Como se explica que o meu maior medo seja exatamente o de ir vivendo o que for sendo? como é que se explica que eu não tolere ver, só porque a vida não é o que eu pensava e sim outra como se antes eu tivesse sabido o que era! Por que é que ver é uma tal desorganização?

E uma desilusão. Mas desilusão de quê? se, sem ao menos sentir, eu mal devia estar tolerando minha organização apenas construída? Talvez desilusão seja o medo de não pertencer mais a um sistema. No entanto se deveria dizer assim: ele está muito feliz porque finalmente foi desiludido. O que eu era antes não me era bom. Mas era desse não-bom que eu havia organizado o melhor: a esperança. De meu próprio mal eu havia criado um bem futuro. O medo agora é que meu novo modo não faça sentido? Mas por que não me deixo guiar pelo que for acontecendo? Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substituirei o destino pela probabilidade.

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A Luta Mundial

Nunca soube ao certo informações a cerca da expressão “luto” até passar por isso – e inclusive saber, que há vários tipos, não só de ao perder alguém -, mas sempre acreditei que faz total sentido. De fato, é uma luta. Nós lutamos. Com o mundo, com o que acreditamos, com a saudade, com a realidade, com todos e, principalmente, com nós mesmos. E é difícil. Às vezes, para uns mais do que para outros. O pior é que por mais que a gente chore e grite, no fundo, é uma luta silenciosa. E só nossa. Tão pessoal e única que ninguém vai sentir igual a você, assim como você jamais saberá realmente como o outro está se sentindo. Vivemos nessa sociedade cada vez mais doente, com uma negligência enorme para com nós mesmos e com as pessoas que estão ao nosso redor. Mais precisamente, falta empatia. No sentido de você tentar se colocar na vivência de alguém e tentar compreender o que ela possa estar sentindo a fim de ajudá-la de alguma maneira. Aí entra o amor ao próximo e altruísmo. Está tudo interligado. Além, falta respeito. As pessoas têm plena consciência de que todos são diferentes à sua maneira, mas insistem em desrespeitar ou menosprezar seja quem for que não esteja seguindo tais malditos padrões sociais: de beleza, sexualidade, etc. Pois lhes digo, o meu padrão é não estar nesses padrões. Se eu quiser publicar uma foto de biquíni, irei publicar. Se eu quiser passar um dos meus inúmeros batons vermelhos, irei passar. Se eu quiser vestir meu short curto por não aguentar mais aquela calça jeans apertando da cintura à baixo, irei vestir. Se eu quiser usar franja, irei usar. Se eu quiser cortar os meus cabelos na nuca ou tingi-los, podem ter na certeza de que eu irei fazer. Se eu quiser ajudar alguém sem fazer alarde nenhum da minha ação, eu ajudarei. Se eu quiser bater papo por horas com alguém que acabei de conhecer a ponto de compartilharmos histórias de vida, baterei. Se eu quiser perguntar à tia da faculdade como ela está naquele dia, perguntarei. Se eu quiser dar bom dia/boa tarde/boa noite com um sorriso na cara mesmo estando tendo um péssimo dia até aquela hora, eu darei. Se eu quiser sempre que possível demonstrar a minha gratidão pelas pessoas que fazem o mesmo por mim, certamente demonstrarei. Tanto como fiz, faço e farei. Acreditem no que vos digo: As críticas diminutivas são diretamente proporcionais àqueles que as proferem. Nossa, há momentos em que nos sentimos tão solitários. Ah, como dói isso! Olhar pro lado até quando há várias pessoas ao redor e se sentir como se houvesse só você ali. Sabe? É horrível. Infeliz. Mas real. Nesse momento, são incontáveis pessoas se sentindo assim no mundo. Lutadores invisíveis e silenciosos. Você pode ser um deles. O primeiro indivíduo que você olhar ou conversar após ler isso, pode ser um deles. Essa luta não precisa ser só sua. Ela pode ser minha. Da sua família. Dos seus amigos. Dum desconhecido. De todos nós. Porque, no fundo, todos temos uma em comum e a mais importante de todas: a vida.

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