Lobo e Cordeiro

Você apareceu em minha vida como essa figura protetora e eu, tão frágil, deixei-me acreditar em tudo. Mal sabia que era o lobo em pele de cordeiro. E eu a sua presa. Como um coelhinho inocente andando por aí sem ter noção do mal que lhe esperava. Seria impossível eu sair dessa sem mudar. Há um marco – do antes e depois, e nele eu perdi algo irrecuperável. Perdi a minha inocência. O que é uma criança sem a inocência? Sem aquela energia que te faz esquecer os problemas por alguns momentos para apreciar a vida. Porque ela é isso. Eu era isso. E você tirou de mim como se fosse nada. Mas, na verdade, era tudo. Notaram que eu mudei. Eles perguntam. Sabem que há algo de errado. Eu não me sinto segura nem na minha própria casa. Durmo com um olho aberto e outro fechado. Tens noção do que é isso? Não? Deveria. Deveria sentir tudo que eu sinto diariamente desde então para ter ciência do mal que fez. Não desejo nada, mal algum a ti, além daquilo que merece. Talvez você nunca será pego. Talvez você nunca pague. Talvez continue se aproveitando. Talvez eles jamais façam algo sobre. Talvez eu morra esperando o dia de um deslize, por menor que seja, suficiente para te fazer cair e jamais ser capaz de levantar e buscar outras para roubar as suas infâncias. Quando isso acontecer, novamente, quando… Não importa quantos anos eu terei, pois mesmo em outro plano, este será o dia mais feliz da minha vida.

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1 de Janeiro – Contagem Regressiva

menina observando ceu

Estávamos os dois afastados da multidão reunida na areia da praia, apenas observando a felicidade estampada em cada rosto existente por ali. Quantas histórias, alegrias, dores, expectativas. Mas, principalmente, quantos sonhos! Desejos de todos os tipos para mais um ciclo que ali se iniciara. A chance de um novo e limpo recomeço. Ansiedade tomava de conta de todos.

— As pessoas colocam tanta responsabilidade no coitado do primeiro dia do ano quando na verdade nada e nem ninguém a possui além de nós mesmos. Somos responsáveis pela nossa felicidade e isso não cabe a terceiros, dias ou afins. Infelizmente, na aplicabilidade a coisa toda desanda. Jogamos tudo em cima de coisas e pessoas! Esse é o nosso pior erro, pois a partir do momento em que damos tal liberdade, aquela pessoa tem o direito de fazer o que bem entender, inclusive menosprezar e jogar fora como um lixo qualquer. Esquecemos de que, no fundo, não é o 1 de janeiro que representa o final de um e início de outro ciclo. A cada amanhecer um recomeço. Todo dia você tem a chance de recomeçar. Reinventar-se. Portanto, sejamos revolucionadores de nós mesmos – todos os dias. Soluciona dores.

Com a aproximação da contagem regressiva tão esperada em todos os anos, as famílias e casais se abraçavam e demonstravam seu afeto, gratidão e alegria por estarem ali compartilhando aquele momento juntos. Permanecíamos afastados. Assustei-me e depois soltei uma gargalhada meio torta, isso sempre acontecia entre mim e eles: os fogos de artifício – começaram a serem soltos e o céu de repente virou uma tela.

A cada minuto a pintura nele era mudada para algo ainda mais belo. Toda aquela paisagem era propícia ao nosso amor. A multidão excitada, a areia gelada, o céu numa mistura de cores incríveis e o azul. Ah! o azul intenso do mar que automaticamente me remetia ao dos seus olhos. Tão profundo. Como eu gostaria de me afogar em teu olhar e dele não mais sair por nada além de um sorriso grande e torto.

— Cinco! Quatro! Três! Dois! Um! Feliz ano novo!

Foi uníssono. Mais um 1 de janeiro chegara. E ali, naquele momento tão romântico ficamos a sós, apenas observando. Com o tempo, não sabia ao certo se estava a olhar o mar ou o seu olhar. Meu único desejo não podia ser realizado. Então o fiz de outra forma: que você permanecesse vivo dentro de mim até o fim já que ao meu lado já não era mais possível.


Música sugerida: Vento no Litoral – Legião Urbana

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E os contos de fadas?

 

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Alícia estudava quieta em seu quarto como um rato de biblioteca. Ela pode ter dez anos, mas é uma criança e tanto. Me orgulho de tê-la como irmã. Entrei em seu quarto apenas para deixar o livro que me pediu emprestado. Ela fez uma cara feia para mim:

– O que foi? – perguntei. Ela olhou pensativa para o livro, era um livro antigo de contos de fadas, mal me lembrava da historia.

– Não sei se ainda quero ler, é de conto de fadas? – ela perguntou e afirmei com a cabeça.

– Então não quero.

– Mas por quê? – perguntei assustada.

– Por que eu leria algo que não é a realidade? Pra eu ficar sonhando por aí? – ela falou com tom de arrogância.  – Louise, o mundo não é um conto de fadas não! Acho que você deveria saber.

Eu olhei mais assustada com as palavras e sorri. Eu já sabia que o mundo não era um lugar cheio de príncipes e princesas, eu já conhecia a realidade e nunca desejei tanto não ter que conhecê-la.

– Quem lhe contou isso? – perguntei.

– Umas meninas da minha sala, disseram que eu devia amadurecer, porque eu não devia mais ler essas besteiras.

Tive vontade de perguntar quem era e pedir que elas metam o seu nariz em outro lugar, mas eram apenas crianças. A verdade é que Alícia não é presa aos livros, ela também sabe viver o agora, acho que disso eu sei, quando ela inventa suas brincadeiras e nunca para de se divertir. E eu não poderia bloquear a realidade dela, uma hora ela teria que ver como é o mundo.

Olhei risonha e me sentei no puff de seu quarto. Alícia me olhou estranha.

– Alícia, quando as pessoas dizem: “O mundo não é um conto de fadas!” Quando falam isso não pensam como são os contos de fadas. Se pararmos para pensar, a maioria começa com uma grande tragédia, com algum momento triste e normalmente trazem problemas complexos. Posso até dar exemplos. Mas quero que você pense simplesmente nos filmes da Disney que têm “final feliz”. A verdade é que para chegarmos em algo muito bom, temos de lutar e sofrer.  No final das contas, os contos de fadas são tão a realidade quanto não parecem ser. O ser humano talvez sofra, mas ele sempre terá o “final feliz”. Basta acreditar. E por favor, nunca pare de sonhar. Nossas vidas dependem deles, mas não viva só de sonhos, e como disse Alvo Dumbledore, não vale a pena mergulhar nos sonhos e esquecer de viver. – falei sorrindo.

– Então?

– Ali, só não deixe de acreditar em si mesma. Essas garotas não sabem de nada. Você é muito mais.


 Clara do Pudim.

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Ato final

palhaço assustador

A pior parte de perder alguém que amamos é o fato dela levar consigo uma parte de você. Haverão momentos nos quais a dor da despedida tomará de conta por algum tempo. Podem ser horas, dias, semanas, meses, anos e até mesmo para sempre. Imprevisível e indeterminado. Nesse tempo, somos irresponsáveis por nossas ações.

Como poderia ser quando a emoção fala mais alto que a razão e coisa outra qualquer? De repente, você se encontra ali, perdido, sem saber o que fazer em seguida. Para os outros aparentará sempre melhor do que como realmente está. As pessoas dizem coisas do tipo “vai ficar tudo bem com o tempo” e perguntam como você está inúmeras vezes.

Mas aqui está a verdade, no fundo nem se importam com sua resposta e preferem a mentira descarada de que tu estejas bem a ter de escutar seus pesadelos e lidar com os mesmos. Eu entendo isso. Quem gostaria de problemas alheios quando já tem os seus, não é mesmo? Ninguém verdadeiramente os quer ao menos que seja pago por isso. Grande sociedade! Rica em preços. Miserável em valores.

Tenho dito: Os vermes da putrefação são tão leais quanto às lágrimas aos pés do seu leito de morte e todo o sentimento ante e póstumo. É válido ressaltar sobre os dois mais profundos e sobressaídos, amor e arrependimento. Juntos? Dilaceram a alma e mente, pouco a pouco, como o veneno colocado para junto da comida de mais uma vítima de Paulo Ruan, chamada Lídia.

Com uma infância cheias de abusos oriundos de uma mãe, Patrícia, submissa e pai, Ricardo, covardemente agressivo. Paulo Ruan canalizou todo o seu ódio às mulheres que viria a matar. Um garoto doce e inocente tornou-se homem impiedoso, frio e calculista. Fazia com que a pessoa acreditasse em todo o seu teatro sobre o quanto a amava. Cada detalhe acerca da rotina e costumes era analisado por esta mente destruída. Ações e reações.

Começava a envenenar aos poucos, mas não com o intuito de matar logo e sim a fim de causar danos lentamente ao corpo e psicológico da vítima. Chegava a tal ponto do prestatito oferecer-se a ajudar, ganhando confiança e ternura da pessoa enquantoa deixava impotente e submissa quanto a, respectivamente, ele e Patrícia – primeira de vinte e cinco mortas. Único homem foi seu genitor.

Graças a herança de seu primeiro homicídio – seus pais, vivia sempre mudando de cidade, nome, aparência e personalidade. Lídia tinha lá seus 48 anos, médica, morava sozinha, sem animais de estimação e um filho que estudava noutro país. Desde o seu divórcio, não havia dado a si  chance de encontrar alguém novo. Para seu azar, resolveu dá-la a pessoa errada.

Após meses saindo juntos, Paulo Ruan já estava com todos os preparativos prontos e a cada hora mais ansioso com o esperado dia aproximando-se. No fundo, ele sabia que tudo sairia com o planejado até ali. Entretanto, como as demais vezes só iria relaxar a partir do momento em que ela desse seu último suspiro de vida. Era um prazer assistir a morte de uma vítima. Sentia-se orgulhoso.

Cegamente ele não percebeu diante dos olhos sua semelhante. Pelas ironias existentes, dois seres tão compatíveis encontraram-se numa noite nada casual. Dois atores doentes num teatro macabro. Já dizia Vinícius de Moraes, a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.

Esperado sábado à noite. 

A atuação para um ali se encerrou junto a sua existência.

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