Só ria

Quando eu era criança, fiz uma redação inúmeras vezes mesmo a minha mãe dizendo que estava boa. Fiz e refiz até quando eu li e disse a mim mesma: Agora sim! No outro dia, ao ler, fui acusada de ter pedido para um adulto fazê-la. Senti-me profundamente ofendida e envergonhada, mesmo sabendo que aquilo não era verdade, mas pela situação. Porque sempre fui ensinada a assumir os meus atos, sejam eles bons ou ruins. Era a primeira a chegar em casa e contar. Anos depois, voltei a usar o papel e foi a melhor coisa que fiz por mim na vida. Cada pessoa tem algumas coisas que simbolizam o que chamamos de válvulas de escape – uma forma de sair duma situação turbulenta ou ruim. Pode ser o ombro amigo, clima familiar, a birita ou um  cafuné, até. Sempre fui do tipo que me isolava, pegava meu lápis e uma folha. Há pouco, muitas coisas têm acontecido na minha cidade, na minha família e, consequentemente, na minha vida. Hoje parei, sentei, coloquei uma MPB de leve e resolvi pôr no papel um pouco a respeito. Pessoas. Pessoas pedindo um socorro – aparentemente silencioso, até não aguentarem mais. Pessoas deixando uma mistura de impotência e revolta em seus entes e amados – até desconhecidos – por não estarem entre nós devido à imprudência e irresponsabilidade alheia. Pessoas indo da mesma maneira que quem eu amo já foi. Pessoas indo aos poucos e sem motivo nenhum aparente. Nós não costumamos interpretar assim, o ponto é: estamos vivos. Devemos aproveitar este fato da melhor maneira possível. Nem sempre o tempo é nosso amigo. Sempre quando me perguntam qual é o meu medo, agora mais do que nunca eu respondo: perda. Não só para a morte. Para a vida também. Sabe? Quando alguém está ali, mas por dentro está indo aos poucos e quando a gente menos perceber, já foi. Medo de perder gente que é importante pra gente. Medo de perder um último abraço. Medo de perder um último “eu te amo”. Medo de perder um amor. Medo de perder um sorriso. Medo de perder tudo. Medo de se perder. Pois, acreditem, não há nada mais terrível do que você querer tanto uma coisa e não poder mais ter. E fica um vazio. O vazio também preenche. Ficamos cheios de nos sentirmos vazios. Os dias ficam cinzas. As semanas passam, sem graça. Mas cá ficamos persistindo e falando para si: basta rir que passa.

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Morte – Pedro Bial

A morte, por si só, é uma piada pronta. Morrer é ridículo.
Você combinou de jantar com a namorada, está em pleno tratamento dentário, tem planos pra semana que vem, precisa autenticar um documento em cartório, colocar gasolina no carro e no meio da tarde morre. Como assim? E os e-mails que você ainda não abriu, o livro que ficou pela metade, o telefonema que você prometeu dar à tardinha para um cliente? Não sei de onde tiraram esta idéia: MORRER!!!
A troco? Você passou mais de 10 anos da sua vida dentro de um colégio estudando fórmulas químicas que não serviriam pra nada, mas se manteve lá, fez as provas, foi em frente. Praticou muita educação física, quase perdeu o fôlego, mas não desistiu. Passou madrugadas sem dormir para estudar pro vestibular mesmo sem ter certeza do que gostaria de fazer da vida, cheio de dúvidas quanto à profissão escolhida, mas era hora de decidir, então decidiu, e mais uma vez foi em frente… De uma hora pra outra, tudo isso termina numa colisão na freeway, numa artéria entupida, num disparo feito por um delinqüente que gostou do seu tênis. Qual é? Morrer é um chiste. Obriga você a sair no melhor da festa sem se despedir de ninguém, sem ter dançado com a garota mais linda, sem ter tido tempo de ouvir outra vez sua música preferida. Você deixou em casa suas camisas penduradas nos cabides, sua toalha úmida no varal, e penduradas também algumas contas. Os outros vão ser obrigados a arrumar suas tralhas, a mexer nas suas gavetas, a apagar as pistas que você deixou durante uma vida inteira. Logo você, que sempre dizia: das minhas coisas cuido eu. Que pegadinha macabra: você sai sem tomar café e talvez não almoce, caminha por uma rua e talvez não chegue na próxima esquina, começa a falar e talvez não conclua o que pretende dizer. Não faz exames médicos, fuma dois maços por dia, bebe de tudo, curte costelas gordas e mulheres magras e morre num sábado de manhã. Isso é para ser levado a sério? Tendo mais de cem anos de idade, vá lá, o sono eterno pode ser bem-vindo. Já não há mesmo muito a fazer, o corpo não acompanha a mente, e a mente também já rateia, sem falar que há quase nada guardado nas gavetas. Ok, hora de descansar em paz. Mas antes de viver tudo? Morrer cedo é uma transgressão, desfaz a ordem natural das coisas. Morrer é um exagero. E, como se sabe, o exagero é a matéria-prima das piadas. Só que esta não tem graça. Por isso viva tudo que há para viver.
Não se apegue as coisas pequenas e inúteis da Vida… Perdoe… Sempre!

assinaturaaaa

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